As coisas da Vida. O gato que mia sem parar porque se vê sozinho. Sai da cozinha, menino, estou aqui eu. Está inconsolável o bichinho, é drama queen, como a criada dele. Anda cá, teimo e teimo, na esperança que ele se cale. Não adianta. A criada dele, eu, está inconsolável por tudo que foi e que não volta a ser. A criada dele consegue quase sempre arranjar forças sabe-se lá onde para combater tudo o que a magoa, desta vez a dificuldade aumenta, mas a esperança também não diminui. Fazem-se apostas na Bet&Win para ver quando vou quebrar. Mas eu não vou quebrar, por mais alto que seja o prémio, nem que para isso tenha de mostrar o que não sou, nem que para isso tenha de gritar bem alto que eu não cedo. Não abdico de um amor que é o meu, não abdico do que eu quero, não abdico da forma como eu te quero. Porque és a minha vida, agora. Porque és marco, cicatriz num coração que é o meu e que teima em não deixar de dizer que gosto de ti, e que és tu que me interessa e mais ninguém. Magoa-me demais viver sem ti, magoa-me ainda mais perceber tudo o que tu és, aceitar tudo o que tu és, e tu nem sequer percebes o que eu sinto por ti. Psicose, diz-me tu. Mania. Obsessão. Será certamente uma dessas patologias, para ti, não será certamente apenas isso, para mim. E se todas as pessoas que te aprazem ocupam a tua mente e os teus dias te deixarem, e se todas as pessoas melhores que eu não te derem a companhia que necessitas, eu quero que saibas que eu estou aqui. Nem que seja a última da lista, nem que tenha de ver o meu lugar sendo passado para trás vezes sem conta, nem que nem tenha lugar, és tu quem me interessa e ninguém mais.
“Olho para o retrovisor e vejo-te a ti no meio de um autocarro cheio de pessoas exactamente iguais, iguais a ti. O motorista – olá como vai? – a senhora que se pendura a um dos ferros agarrando com muita força a mala que transporta – sou eu , sou eu dizes! – aquele miúdo , aquela mulher, aquele senhor, ticket ticket! – dizes brincando aos revisores – e de repente, uma paragem onde todos saem humilhando as outras saídas que esperavam ainda recebê-los.
Eis-me no carro a esta hora, a mesma música que ouviras no caminho para casa, o mesmo vidro embaciado, a mesma seiva que escorre agora por este vidro plano, o mesmo cigarro que apagaste, as mesmas notícias com as quais adormeceras. Eis-me – não finjas! a mesma foto que sabes não ser eu, o mesmo vulto que te trespassa, o mesmo jeito que te afaga e que agora caminha pelo mesma estrada que há pouco percorreras.
Eis-me de regresso a casa, metendo as chaves à porta – bom dia como vai, é a vida , é a vida, tem que ser ser! Tem que ser! – fazendo tudo para que não acordes, entrando devagarinho, devagarinho – shiuu! – não fazendo barulho algum – mesmo sabendo que no quarto onde te imagino, nessa cama que me aguarda, tu nunca estiveste, tal qual o vidro embaciado que agora é manhã clara.”
Fernando Alvim – diz tudo bem melhor do que eu.