a minha vidinha está complicada. E porque é que está complicada, Maria Laurinda? Porque está. É uma resposta tão simples quanto estúpida. Têm de haver motivos para a minha vida estar complicada mas não os tenho todos aqui presentes. Se calhar é por causa das horas. Olho para o canto inferior esquerdo ou direito do monitor e observo que são 2:30 da manhã. Nem digo onde estou para não me chamarem de parva. Tenho trabalhado muito mais do que a lei dita. Diria o dobro do que a lei dita. Não tenho tempo para dar comida aos animais, não tenho tempo para me olhar ao espelho, não tenho tempo para ver a telenovela e já perdi até ao fim à meada. Estou quase sempre acompanhada, mas a companhia traz-me solidão. Não sei porque trabalho tanto, não sei porque me esforço por algo que não me traz benefícios nenhuns. Sou eu e a minha bondade, que aqui está sentada ao lado e que me apetece espancar até que morra. Como a bondade não tem corpo, resta-me espancar a mim própria até à morte. Não sei de ninguém que o tenha conseguido fazer, porém. Posso ir buscar o x-acto e tentar o harakiri. Mas diz que cheira mal e faz muito estrago e não tenho a senhora da limpeza aqui assim do pé para a mão. E é capaz de ser chato morrer sozinha, ainda por cima a cheirar mal e com muita porcaria à volta. Ainda há duas semanas estava eu (ligeiramente) alcoolizada quando disse à minha paixão de adolescência que às vezes me sentia muito sozinha. E ele perguntou-me “Então porquê?” e fugiram-me as palavras, essas p*tas, e eu não consegui explicar e ele ficou a achar que eu o estava a enganar. A verdade é que toda a gente pensa que eu nunca me poderei sentir sozinha porque quase nunca estou sozinha. Mas a pior das solidões é aquela em que nos sentimos sós no meio da multidão em que a nossa voz não é mais que um simples ruído.
Às vezes acho que foi tudo um erro, do princípio ao fim.
Às vezes o problema é o tempo.