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Archive for the ‘O Alvim tb é o maior’ Category

Coisas da Vida

As coisas da Vida. O gato que mia sem parar porque se vê sozinho. Sai da cozinha, menino, estou aqui eu. Está inconsolável o bichinho, é drama queen, como a criada dele. Anda cá, teimo e teimo, na esperança que ele se cale. Não adianta. A criada dele, eu, está inconsolável por tudo que foi e que não volta a ser. A criada dele consegue quase sempre arranjar forças sabe-se lá onde para combater tudo o que a magoa, desta vez a dificuldade aumenta, mas a esperança também não diminui. Fazem-se apostas na Bet&Win para ver quando vou quebrar. Mas eu não vou quebrar, por mais alto que seja o prémio, nem que para isso tenha de mostrar o que não sou, nem que para isso tenha de gritar bem alto que eu não cedo. Não abdico de um amor que é o meu, não abdico do que eu quero, não abdico da forma como eu te quero. Porque és a minha vida, agora. Porque és marco, cicatriz num coração que é o meu e que teima em não deixar de dizer que gosto de ti, e que és tu que me interessa e mais ninguém. Magoa-me demais viver sem ti, magoa-me ainda mais perceber tudo o que tu és, aceitar tudo o que tu és, e tu nem sequer percebes o que eu sinto por ti. Psicose, diz-me tu. Mania. Obsessão. Será certamente uma dessas patologias, para ti, não será certamente apenas isso, para mim. E se todas as pessoas que te aprazem ocupam a tua mente e os teus dias te deixarem, e se todas as pessoas melhores que eu não te derem a companhia que necessitas, eu quero que saibas que eu estou aqui. Nem que seja a última da lista, nem que tenha de ver o meu lugar sendo passado para trás vezes sem conta, nem que nem tenha lugar, és tu quem me interessa e ninguém mais.

“Olho para o retrovisor e vejo-te a ti no meio de um autocarro cheio de pessoas exactamente iguais, iguais a ti. O motorista – olá como vai? – a senhora que se pendura a um dos ferros agarrando com muita força a mala que transporta – sou eu , sou eu dizes! – aquele miúdo , aquela mulher, aquele senhor, ticket ticket! – dizes brincando aos revisores – e de repente, uma paragem onde todos saem humilhando as outras saídas que esperavam ainda recebê-los.

Eis-me no carro a esta hora, a mesma música que ouviras no caminho para casa, o mesmo vidro embaciado, a mesma seiva que escorre agora por este vidro plano, o mesmo cigarro que apagaste, as mesmas notícias com as quais adormeceras. Eis-me – não finjas! a mesma foto que sabes não ser eu, o mesmo vulto que te trespassa, o mesmo jeito que te afaga e que agora caminha pelo mesma estrada que há pouco percorreras.

Eis-me de regresso a casa, metendo as chaves à porta – bom dia como vai, é a vida , é a vida, tem que ser ser! Tem que ser! – fazendo tudo para que não acordes, entrando devagarinho, devagarinho – shiuu! – não fazendo barulho algum – mesmo sabendo que no quarto onde te imagino, nessa cama que me aguarda, tu nunca estiveste, tal qual o vidro embaciado que agora é manhã clara.”

Fernando Alvim – diz tudo bem melhor do que eu.

E sendo assim, não resisto a uma estranha analogi…

Outubro 19, 2006 lilystrange 1 comment

E sendo assim, não resisto a uma estranha analogia entre tudo isto de que te falo e entre a paixão que sinto por ti. Prepara-te porque é muito estranho, mas no fundo, é isto que te quero dizer depois de tudo o que te revelei e peço para esqueceres agora. A minha paixão por ti, é eu ser orfão, viver num reformatório e esperar pela visita de alguém que me tire dali. Calma, ainda não é isto. A minha paixão por ti é estar numa fila imensa com meninos mais bonitos que eu, bem melhor tratados, mas mesmo assim, fazendo tudo para que me escolhas a mim e me leves para fora. Porque é a ti que eu quero e a mais ninguém. E mesmo quieto, estou aos saltos cá dentro quando te vejo, mesmo mudo, estou a gritar para que me leves daqui, mesmo aqui, entre todos, faço força com os olhos para que fiquem maiores à tua passagem. E mesmo que não me leves desta vez, fico à espera de outra, e mais outra, até ao dia, em que não sobra mais ninguém, em que só estou eu ali, sozinho, sem mais meninos bonitos, sem mais nada, quase nú, por deus, com uma roupa velha e suja, à espera que me agarres. E se não o fizeres mesmo assim, quero que saibas que dali não saio sem ti, mesmo que ali fique, para sempre, toda a vida, na certeza de que não me vendi a outro alguém, na esperança de que tu voltes. Porque é o teu regresso que me importa, porque é esse bocadinho em te vejo que me faz ficar de lágrimas nos olhos mas contente cá por dentro. Porque é mesmo isto, é mesmo isto que eu penso, a mais bela das tristezas é a felicidade com lágrimas nos olhos.

Fernando Alvim

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