less is more
Quando cresceres, nunca dependas de um homem.
Foi o que sempre ouvi a minha mãe dizer. E ainda a ouço. Ouço-a ainda mais quando me dizem “porque é que a menina não casa” ou “porque é que a menina não tem namorado” ou “porque é que a menina vive sozinha”, principalmente quando me é dito por um senhor de 80 que me diz “uma menina tão bonita e sozinha” como se extraordinário tal fosse. Viver sozinha é talvez das coisas mais dificeis de se contornar. Independência, claro, mas nenhum ser humano é 100% independente, por mais misantropo que seja, porque até os misantropos precisam das pessoas para que confiram tal condição. E se não se é misantropo, com certeza que precisamos e queremos muitas vezes, chegar a casa e estar alguém lá para conversar e para fazer a comida e para nos ajudar a passar problemas tão inúteis como enfrentar um bad hair day. Aprender a estar sozinho e a perceber que por muito que gritemos e por mais tempo que estenhamos no banho, não vai haver alguém para nos mandar calar ou que nos desligue a água quente, é coisa que se vai assimilando e entrenhando no corpo e na alma, depois de mil caixas de nestum ingeridas e depois de rir sozinha naquele filme que tinha tudo a ver com a nossa vida. É ter força suficiente para querer e acreditar que vamos conseguir mudar de casa em 2 dias, sem ajuda de ninguém, mesmo que tenhamos um colchão de 1400×2000 e um frigorífico familiar para carregar. É querer e acreditar que o nosso mundo funciona, que o nosso mundo não se fecha naquelas quatro paredes e que o nosso mundo se abre a toda a gente que nele queira entrar. É por esta etapa de crescimento pessoal, pelo orgulho que vou ter quando digo “o que está aqui é meu e só meu”, pago com esforço, pensado até ao infímo pormenor num esboço que mais ninguém viu.
E isto é tão verdade para mim, como acreditar que a mística de Sintra se deve sobretudo a um filho da puta de um mau tempo diário.


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